segunda-feira, 21 de junho de 2010

SARAMAGO por Sandra Freitas


Não direi:
Que o silêncio me sufoca- e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é doutra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vasa de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago





Meu coração está imensamente triste pela perda de um dos maiores escritores de todos os tempos, um revolucionário na arte da escrita. O mundo perdeu, mas nesses 87 anos ganhou e muito com suas linhas sem ponto, sem vírgula, sem convenções ortográficas, mas sempre recheadas de sentido e sensações da alma desse grande homem- escritor.

Obrigada Saramago, foi uma honra ainda viver na mesma época que você..

Sandra Freitas



Sandra
Emocionaste-me por esse teu gesto solidário e de amor. Sabendo que Saramago era convictamente ateu e tu profundamente crente em Deus, todavia não deixaste de homenagear o Homem e o Escritor!
Beijos do





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